Eu

Quem é o Poeta?

A resposta é longa e inconclusa.

Buscando a independência desde o nascimento.

Nasci em São Paulo na madrugada de 07 de setembro de 1979. Filho do Sr. Carlos, um mineiro vendedor de pisos e azulejos, mas que tinha uma tendência a tentar descobrir as novidades que estavam acontecendo no mundo, e de Sra. Neusa, uma paulistana dona de casa, costureira e que sempre se questionava das coisas, quase todas. Além deles, me “aguardava” naquele dia o meu único irmão “de sangue”, que estava para completar 4 anos quando nasci e, dada a criatividade de meu pai na época, também se chama Carlos.

Apesar de ter nascido no bairro de Moema, éramos uma família bem distante da realidade social daquele local. Pelo que sei morávamos ali meio que de favor. Quando completei 3 anos meus pais compraram um apartamento financiado em Santana, Zona Norte da capital. Na época era considerado um bairro ainda meio que distante do centro. Morei por 15 anos no mesmo local, mas desde cedo aprendi que se pode viver em diferentes lugares mesmo tendo um endereço só.

Uma infância normal e anormal.

Chamo de infância normal aquilo que todos que eu conhecia faziam. Andava de bicicleta na rua, empinava pipa com meu pai, ia pra EMEI José Bonifácio (depois mudei de escola 9 vezes), ia a igreja com a família, ajudava meus pais com a compra de mês (que aconteciam exatamente no dia que meu pai recebia o seu salário e nos garantiam um suprimento de Tanjal, groselha, arroz, feijão, carne moída, goiabada de lata, 4 garrafas de 1 litro de guaraná Skol pro mês, bolacha maisena e outras maravilhas dos anos 80), caçava vaga-lume, fazia lição de férias da escola, viajava com minha tia pra Praia Grande de vez em nunca, com meu vô pra Minas Gerais de vez em quando, brincava com meus amigos, mas não jogava futebol (a minha presença num time garantia a vitória do adversário, mesmo que o time oponente tivesse 2 ou mais jogadores a menos).

O que mais me recordo com carinho era a infância anormal. Considero anormal porque aonde eu morava essas coisas não eram comuns e que meus pais fizeram por mim e pelo meu irmão e que tiveram tanto ou mais impacto positivo do que a minha vida normal. Meus pais me alfabetizaram através da leitura de jornais, me davam as tiras do Calvin e Haroldo, as sinopses dos filmes em cartaz e coisas do tipo. Na sala não tínhamos televisão (nada de questões religiosas). Havia um grande armário de livros e um toca-discos. A única tv que tínhamos ficava no quarto e a razão disso era porque meu pai não poupou esforços para que, em meados dos anos 80, tivéssemos um TK-85, um computador com memória ram de 16 kb e que rodava programas em fita cassete e usava a tv como monitor. Por quase 10 anos fomos os únicos num prédio com 68 apartamentos a termos um computador. Em compensação nunca tive um Atari. Desde pequeno meus pais me expunham ao que existia de diferente no mundo e faziam questionar o porquê das coisas.

As coisas aconteciam de repente, foi assim quando meu pai decidiu nos levar pra conhecer a Gruta de Maquiné em Cordisburgo – MG e Brasília – DF dentro do Fusca que ele tinha, ou como no dia 9 de fevereiro de 1986 ele nos levou ao interior de São Paulo pra tentarmos ver o Cometa Halley. Minha mãe ouvia Elvis, Chico Buarque, Jair Rodrigues e Handel. Contava dos tempos que escrevia poesia e que fazia colares com canudinhos. Meu pai contava das andanças dele pelo país e de como viu a cidade crescer (ele começou a trabalhar como entregador aos 8 anos em 1947, então dá pra ter uma ideia da transformação que ele viu a cidade passar). Meu irmão juntava garrafas pra trocar por lanche na escola, não tinha álbum de figurinhas mas era craque no bafo e no pingue-pongue. Eu ficava olhando e pensando muito sobre como muitas coisas eram diferentes em casa, principalmente o quadro de um peixe que meu pai ganhara de Francisco Brennand na década de 70.

Penso, logo mudo.

Fui um garoto tímido e fantasioso. Criava as mais mirabolantes fantasias na minha cabeça, em minhas brincadeiras sozinho ou com os amigos que topavam entrar nelas. Logo no início do ginásio lembro-me de ler alguns livros com os quais passei a me identificar. “Sombras de Reis Barbudos” de J.J. Veiga e “O Menino no Espelho” de Fernando Sabino. Esses dois livros basicamente me fizeram aceitar a ideia de que um mundo de fantasia era possível de ser vivido, de alguma forma. Por anos fiquei na dúvida do que eu realmente queria ser, caminhoneiro ou arqueólogo (o coração ficava dividido mesmo).

Depois de mudar de escolar algumas vezes cheguei a 8ª série (atual 9º ano). No segundo semestre, ao reingressar numa escola que eu já havia estudado no primário eu decidi dar uma guinada na minha vida e embarcar numa fantasia. Ninguém me conhecia, sabia de meus medos, minha timidez ou coisas do tipo, eu podia ser quem eu quisesse e decidi naquele momento que eu queira entrar pro grupo de teatro. Havia uma competição entre as muitas turmas da escola e eu fui escalado para interpretar o então presidente Itamar Franco numa peça intitulada “Se a canoa não virar eu chego lá”, de autoria dos próprios alunos. Uma peça com crítica política e social com muito bom humor. Entre as 16 peças participantes do festival, conquistamos um honroso 2º lugar. Era hora de colocar tudo que meus pais e meu irmão haviam me passado de experiência em prática e, daquele momento em diante nunca mais fui o mesmo.

A efervescência da adolescência.

Fiz meu colegial em duas escolas diferente e passei a me dedicar com paixão ao teatro e a música, mais com atividades de bastidores do que de fato me apresentando ou tocando. Havia começado a escrever poesias na 8ª série mas comecei a tratar com mais carinho o “ofício” a partir de então. Pela influência da escola e de amigos passei a me indagar quanto aos problemas sociais, ambientais e políticos.

Aos 14 anos era membro do Greenpeace, já usava chapéu diariamente e, quando dava, participava das atividades da pastoral existente no Campos Elíseos que atuava com as crianças carentes. Já andava por aí, indo aonde achava que tinha que ir. Aos 15 anos meus pais me deram uma barraca e fui acampar com alguns amigos pela primeira vez em Visconde de Mauá – RJ. Foi nessa mesma época que fiz meu primeiro e único show com uma banda, o Niperkin, no extinto Aeroanta.

Aos 16 anos tive meu primeiro “emprego”, ajudando num estúdio de ensaios e gravações. Durou pouco tempo mas continuei no meio, ou tentei continuar. Passei a organizar shows para bandas de amigos que curtiam um rock (Voodoo Blues, Silent Sight e outras que também nunca foram famosas). Ajudava na sonorização e iluminação de espetáculos teatrais, balés, shows, casamentos, missas, qualquer coisa. Vendia salgadinhos no teatro (o mesmo que atuei na 8ª série) e assim fui seguindo pelos meus anos de colegial.

Tive um Corcel II, frequentava barzinhos, ia pra shows, fui em passeatas contra a privatização da Vale do Rio Doce, ajudava na creche da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, fiz filme sobre os moradores de rua e sobre religiões não convencionais e outras coisas mais que fiz que são inesquecíveis em minha memória.

Tudo o que couber e muito mais em 5 anos.

Ao me formar em nada no ensino médio fui morar em Piracicaba na tentativa de fazer uma faculdade, ideia que abandonei com aproximadamente 3 meses de curso. Depois me mudei pra São Pedro, cidade em que meus pais pretendiam passar a aposentadoria. Fui o primeiro a morar numa casa de um bairro sem casas. Era normal abrir a janela e ver as vacas passando pelo quintal. Viver naquele pé da cuesta me fez voltar mais ainda os pensamentos sobre as questões ambientais e decidi que prestaria Geografia. Seguindo meus instintos, não estudei, prestei e passei. Voltei pra São Paulo poucos meses depois que meus pais se mudaram pro interior.

Comecei a trabalhar como vendedor de consórcios da FIAT e, pouco tempo depois, fui contratado como técnico de som do mesmo teatro em que atuei na 8ª série (a gente dá voltas e voltas mas algumas vezes para no mesmo lugar) e exerci minhas funções por quase 1 ano. Pedi demissão para me dedicar mais aos estudos e na mesma semana a universidade entrou em greve.

Iniciei um processo de 3 anos lecionando num supletivo gratuito (e sério) sem remuneração. Voltei a ser autônomo de novo na organização de shows e eventos e trabalhei com um pessoal de uma banda chamada Panduê, que considero uma das coisas mais legais que fiz em toda a minha vida, tocando em diferentes lugares e cidades, com propostas e ações bem ousadas.

O Panduê acabou e minha “empresa” também. Comecei a fazer colares e pulseiras pra vender na Vila Madalena e continuei lecionando geografia em escolas particulares e públicas, além de fazer um curto estágio na Estação Ciência, um museu de São Paulo. Aos poucos as coisas foram perdendo um pouco do sentido e me propus uma nova mudança, indo trabalhar como Monitor na FEBEM (sim, aquele cara que todo mundo acha que dá porrada na garotada que cometeu alguma infração perante a lei). Aprendi muito nesse período, inclusive que nem todo mundo que parece que é mau, é mau, e que nem todo mundo que parece que é bom, é bom. Descobri que primeiro eu deveria resolver os meus problemas antes de querer resolver o dos outros e saí dali. Passei num programa de estágio de um grande cursinho pré-vestibular de São Paulo e comecei a elaborar material didático pra a tal instituição. Sem muita perspectiva de que as coisas fossem mudar, em dezembro de 2003 o mundo girou sob meus pés e me levou pra novos caminhos.

Dessa época louca e de muita coisa acontecendo ao mesmo tempo eu participei de grupos ecumênicos que misturavam protestantismos, catolicismo, espiritismo e umbanda. Foi o período que mais li e vi filmes na minha vida. Chegava a ler ao mesmo tempo três livros e via no mínimo 1 filme novo por semana no cinema. Fiquei 1 ano inteiro sem televisão, mas não sem internet discada. Descobri-me cada vez menos alinhado a um partido e sim mais próximo de ideais e filosofias libertárias (a verdade é que eu virei politicamente e culturalmente anarquista, o que me fez perder muitos amigos que não conseguiam deixar de seguir a fé cega em políticos e partidos). Em 5 anos mudei de casa 3 vezes. Tive três blogs e 1 site. Um dos blogs deu bem certo, mas acabou.

Um pouco antes do agora (uns 12 anos atrás, mais ou menos).

Em dezembro de 2003 eu conheci a mãe de meus 3 filhos (Gustavo, Betina e Tarsila) e com quem vivi por 10 anos, até nos separarmos. Foi no mesmo mês que realizei um sonho que parecia até então intangível: Fui pro meu primeiro trabalho de campo com uma equipe arqueológica.

Passei duas semanas em Ribeirão Grande – SP, no bairro do Barro Branco. Voltei decidido a não perder a chance de realizar um sonho de infância e que era muito mais legal do que eu imaginava. Larguei o cursinho e caí de cabeça na Arqueologia. De dezembro de 2003 até junho de 2007 vivi o quanto pude na arqueologia brasileira. Viajei, vi coisas diversas, culturas locais maravilhosas, coisas boas e coisas más do ser humano, paisagens fantásticas e inesquecíveis desse país. Em 2006 fui com a família morar em Porto Seguro – BA por conta de um trabalho arqueológico. Por motivos diversos, mudei de vida de novo. Não cheguei a concluir a Geografia por relaxo, irritação, falta de tempo e muita coisa mais.

Em julho de 2007 entrei pro curso de Técnico em Artes Gráficas pelo SENAI, onde fiquei por 2 anos até a conclusão. Estagiei em impressão off-set batendo papel cartão numa gráfica de embalagens, fui auxiliar da qualidade numa gráfica de rótulos de cerveja e passei por outras grandes gráficas como analista e gerente da qualidade. Abandonei as botas, o chapéu e as roupas sujas de terra pelo paletó e gravata. Fiz um curso de Tecnologia em Gestão da Qualidade e também uma pós-graduação em Gestão Sustentável.

Em 2011 me tornei auditor de um organismo certificador e voltei a viajar como sempre gostei. Fiz mais de 240 auditorias em menos de 18 meses. Fui tão bem no que fazia que me passaram para coordenador de um programa de certificação, onde comecei a executar mais e mais atividades de escritório. Um dia, sentado no ônibus pra variar, tive uma epifania e vi que algo estava muito errado. Era a hora da mudança e em 2013 saí da certificadora para me juntar a um grande amigo-irmão que conheci em 2010 e fiquei sócio dele numa empresa de consultoria ambiental.

Durante toda minha vida conheci as mais diversas pessoas, pelas quais tenho um grande carinho. Alguns sumiram e para outros fui eu quem desapareceu. Alguns perdi contato e com outros reencontrei. Há aqueles com quem eu falo há mais de 30, 20 ou 10 anos e há aqueles que conheci agora. Gente que foi importante em diferentes momentos de minha vida.

E de agora pra depois…

Quando me perguntam o que faço ainda acho difícil explicar e prefiro dizer que sou apenas poeta.

Se me perguntam pra onde vou, com quem vou ou como vou, não respondo. É coisa incerta, o melhor da vida é poder mudar ela de lugar.