Festa ou Velório?

Fiquei quase 15 anos longe de qualquer coisa que remetesse ao cenário underground ou independente, por diferentes razões (faculdade, mudanças e mais mudanças na minha vida profissional, família etc). Durante todo esse período nunca deixei de acreditar na força do underground, do ‘faça você mesmo’ e dos artistas independentes.

Posso dizer que também estive praticamente desconectado das redes sociais, eu que vi a internet chegar no Brasil, não acompanhei essa onda que foi o Facebook arrebatando tantas pessoas. Sou de uma época em que, se você quisesse seu espaço na web, criava um site gratuito, com muita dificuldade e poucos recursos, onde sempre existia uma página de links para se compartilhar conteúdo de outras pessoas.

Quando eu vejo um festival de bandas vazio ou com meia dúzia de gatos pingados, uma feira de autores e coletivos independentes onde as pessoas passam e nem folheiam as publicações de 90% dos expositores, eu só consigo pensar no pior dos cenários para quem é artista independente ou underground.

Vinte anos atrás, quando o máximo de comunicação que se conseguia era colar cartazes na Galeria do Rock, os espaços eram escassos e na maioria das vezes tanto o público quanto as bandas tinham que de certa forma arcar com tudo para que os shows acontecessem. Quando eu penso que autor independente tinha que ficar na frente do MASP tentando vender seu livro e a galera distribuía ou vendia seus fanzines xerocados nos rolês, e que na verdade agora tem até muito mais meios de divulgar, distribuir e até mesmo estrutura física para os eventos, me bate uma sensação estranha vendo o vazio, ou indiferença.

A sensação que tenho é de descongelamento, uma saída de coma. É um tanto quanto incompreensível ver que tenho amigos com um monte de amigos envolvidos em cinema, música, design e que só bebem cerveja “de verdade” ou vinho das mais variadas vinícolas enquanto debatem tanto sobre tudo, sempre envolvidos numa névoa de intelectualidade e contextualizados num rótulo mais alternativo e, com tudo isso, ninguém é capaz de prestigiar o novo.

É incompreensível a bundamolice dessa galera alternativa, a falta de opinião própria, que poderia escolher e se dar o direito de consumir tanto material bacana que se produz por aí, e que não tem ainda a benção da Editora descolada ou dos músicos que ainda não estão no radar daquele DJs ou artistas que dão o selinho de aprovação.

Cada um pode consumir o que quiser, postar foto no Instagram, fazer check-in no Facebook, não é esse o problema. Vai e compre o que quiser, mas faça isso por que você realmente deseje conhecer coisas novas, e queira conhecer coisas novas. Saia do comum, ou do falso alternativo, mas saia do mesmo lugar. De nada adianta criticar quem compra livro de youtuber se você só compra livro da Editora descolada que é hype, e que você nem vai ler depois, mas vai deixar naquela pilha que serve de decoração na sala e que seus amigos curtem quando vão beber vinho na sua casa.

Tem muita banda, peça, cartunista, autor e mais um monte de artista bacana por aí que você pode gostar, basta deixar sua preocupação com o julgamento alheio de lado.

Pensando bem, de que adianta eu escrever tudo isso, eu não estou no radar do hype do momento, eu não tenho 1000 seguidores no twitter. Eu não tenho fanpage no Facebook, então de que adianta, se você ler e curtir ninguém vai te achar bacana por isso.